EDITORIAL: Carnaval, economia e escolhas públicas em Jardinópolis
- Renato Gomes
- há 2 dias
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A decisão da Prefeitura de Jardinópolis de não realizar o Carnaval 2026 de forma oficial levanta um debate recorrente sobre prioridades, gastos públicos e o papel do poder público na promoção de eventos culturais. Segundo a administração municipal, a opção busca reduzir custos, descentralizar as comemorações e incentivar a economia local por meio de iniciativas independentes.
Na prática, o apoio anunciado se limita à disponibilização de banheiros químicos e ao fechamento de ruas para eventos cadastrados, como bloquinhos ou festas promovidas por bares e restaurantes. Cabe à iniciativa privada ou à própria população organizar e financiar as atividades, desde que aprovadas pelo município.
A justificativa econômica apresentada pela prefeitura merece uma análise mais cuidadosa. Estudos realizados em diversas cidades brasileiras mostram que o Carnaval, quando bem planejado, não é apenas um gasto, mas um investimento capaz de gerar retorno financeiro aos cofres públicos e à economia local. Setores como alimentação, transporte, serviços e comércio costumam ser diretamente beneficiados, além da criação de empregos temporários.
É verdade que o sucesso do evento depende de fatores essenciais, como planejamento, segurança pública e infraestrutura. Sem esses elementos, o saldo pode ser negativo. Com eles, porém, o Carnaval figura entre os eventos que mais movimentam recursos nos municípios.
Nas redes sociais, parte da população comemorou a decisão da prefeitura, defendendo que o dinheiro deveria ser aplicado em áreas como saúde e educação. Esse argumento, embora compreensível, ignora um aspecto básico da administração pública: cada secretaria trabalha com orçamento próprio. A não realização de um evento cultural não autoriza, automaticamente, o redirecionamento desses recursos para outras pastas.
Por fim, é importante diferenciar descentralização de ausência de política pública. Quando a população organiza eventos com recursos próprios, mesmo com apoio institucional, isso caracteriza iniciativa privada ou comunitária, não necessariamente uma estratégia planejada de descentralização cultural. Descentralizar pressupõe coordenação, planejamento e presença do poder público — ainda que compartilhada com a sociedade.
O debate sobre o Carnaval, portanto, vai além da festa em si. Ele expõe escolhas administrativas, visões sobre cultura e desenvolvimento econômico e a necessidade de transparência na comunicação com a população.
Foto capa: Neyya/Getty Images
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