CONCHA ACÚSTICA: A história de um dos espaços culturais mais marcantes de Jardinópolis através da imprensa
- Renato Gomes

- 5 de jun.
- 8 min de leitura

Antes de mais nada, gostaria de compartilhar algumas informações importantes.
Tudo o que foi escrito e divulgado nesta matéria foi elaborado com base em uma pesquisa realizada por mim em jornais da época, entre eles A Cidade de Jardinópolis, Folha de Jardinópolis, Notícias em Mídia e Jornal Mídia.
As informações aqui apresentadas são resultado da análise de notícias, reportagens, entrevistas, artigos, registros históricos e demais conteúdos publicados nesses jornais ao longo de mais de três décadas, ajudando a reconstruir a trajetória da Concha Acústica Maestro Salvador Princivalli.
Algumas das imagens e fotografias publicadas nesta matéria são reproduções de recortes desses jornais, preservando registros históricos de diferentes épocas. O material também conta com informações obtidas no livro "Jardinópolis: Das Origens ao Centenário", de Jorge Saquy Sobrinho, além de fotografias pertencentes ao meu acervo pessoal e a página da Galeria dos Prefeitos da Prefeitura Municipal de Jardinópolis.
O objetivo deste trabalho é contribuir para a preservação da memória de um dos espaços culturais mais importantes da história de Jardinópolis, reunindo fatos, acontecimentos, documentos e lembranças que marcaram diferentes gerações.
Tenham todos uma boa leitura.

Durante muitos anos, quem passava pela Praça Nossa Senhora Aparecida, a Praça Matriz de Jardinópolis, encontrava uma estrutura que marcou a vida de diferentes gerações da cidade. Construída em 1979 pelo então prefeito Dr. Newton Princivalli da Silva Reis, a Concha Acústica Maestro Salvador Princivalli foi palco de shows, apresentações teatrais, festivais, exposições, campanhas beneficentes, encontros religiosos, eventos comunitários e inúmeras manifestações culturais que ajudaram a escrever parte da história do município.

Mais do que uma construção de concreto, a Concha se transformou em um espaço de convivência, cultura e memória.
A Concha recebeu o nome de Maestro Salvador Princivalli, uma homenagem a uma figura importante da história cultural da cidade.

Salvador Princivalli foi regente da antiga Corporação Musical Lyra Guarany, uma das mais tradicionais instituições musicais de Jardinópolis. Sua atuação ajudou a fortalecer a tradição musical local em uma época em que as bandas tinham papel fundamental na vida cultural das cidades do interior.
Ao receber seu nome, a Concha buscava homenagear alguém que dedicou parte da vida à música e à formação cultural da população.
Com aproximadamente 10 metros de abertura frontal, 4,5 metros de altura e cerca de 15 metros de comprimento, a estrutura possuía formato de abóbada parcialmente enterrada. Seu interior contava com arquibancadas inspiradas nos anfiteatros gregos, com capacidade para mais de 500 espectadores.
Na parte traseira ficavam os banheiros públicos, algo importante para a época, já que a Praça Matriz não possuía sanitários antes da construção da Concha.
Durante sua inauguração foi instalada uma televisão colorida de 71 polegadas, considerada uma grande novidade tecnológica para aquele período.
Os primeiros anos
Em 1980, a Concha recebeu a 1ª Exposição de Orquídeas e Plantas Ornamentais de Jardinópolis, realizada em parceria com a Sociedade Orquidófila de Ribeirão Preto.
Também naquele período ocorreram apresentações musicais, entre elas a do conjunto internacional Ivan e Las Rancheritas, que apresentou músicas sertanejas, mexicanas, baladas e danças típicas latinas.

Dois anos depois aconteceria um dos eventos mais importantes de sua história.
Em 1982 foi realizado o 1º Festival de Música Sertaneja de Jardinópolis, promovido pela Prefeitura Municipal por meio da Comissão Municipal de Esportes, Cultura e Turismo.
O festival teve início em 8 de maio, com eliminatórias realizadas entre maio e julho. A grande final aconteceu em 27 de julho, aniversário da cidade, sendo transferida para o então Ginásio de Esportes devido à expectativa de público.
O Trio Canário do Reino conquistou o primeiro lugar com a música "Amargo Pranto". Em segundo lugar ficou a dupla Valmir e José Antônio com "Meus Tempos de Boiadeiro". O terceiro lugar também ficou com o Trio Canário do Reino, com "Ninguém Vive Sem Amor".
O festival contou ainda com a participação de Canhoto e Canário, Silva e Silvaninho, Fernando e Fernandinho, Os Cabeleiras, Tunim e Tinô, Irmãos Romano, Solitário e Desprezado, Nego e Neca, Danio e Daniel, Israel e Israelito, Ditinho e João Castrechi, Décio e José, Edinho da Mata e Mairon, além de Odair e Odimar.
Naquele mesmo ano, a Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto realizou sua primeira apresentação na Concha Acústica.



Nos anos seguintes passaram pelo local concursos de discoteca, apresentações de break, balé, teatro de marionetes, shows sertanejos, encontros religiosos, exposições e inúmeras atividades voltadas às crianças.
Grande parte dessas atrações teve participação de nomes conhecidos da cidade, como Bídio e Macalé, responsáveis por diversos eventos realizados aos finais de semana.
Entre o sucesso e o abandono
Apesar da intensa utilização, já na década de 1980 começaram a surgir reclamações relacionadas à manutenção da estrutura.
Em 1986 os jornais registravam problemas de conservação, presença de entulho, sujeira e sinais de abandono. A própria Praça Matriz enfrentava dificuldades semelhantes, incluindo problemas na Fonte Luminosa.
Mesmo assim, a Concha continuava recebendo eventos.
Ali aconteceram campanhas beneficentes, arrecadações para vítimas das enchentes do Rio de Janeiro, apresentações de Folia de Reis, feiras da APAE, cerimônias militares, concursos, encontros comunitários e diversos shows.


Na década de 1990, o espaço seguiu ativo.
Recebeu apresentações sertanejas, concursos de RAP, encontros de Dança de Rua com participação de grupos de Ribeirão Preto, apresentações do Coral Vozes em Louvor e eventos ligados às comemorações do aniversário da cidade.
Em 1998 ocorreu uma mudança significativa na paisagem da praça: a retirada de 15 grandes pinheiros que cercavam a Concha.

Os banheiros e um problema que durou décadas
Um dos temas mais recorrentes encontrados durante esta pesquisa foi a situação dos banheiros da Concha.
Durante anos os jornais registraram reclamações envolvendo falta de manutenção, sujeira, mau cheiro, ausência de iluminação e problemas estruturais.
Vale lembrar que antes da construção da Concha não existiam banheiros públicos na Praça Matriz. Por isso, os sanitários da estrutura acabaram atendendo não apenas os eventos realizados no local, mas também os frequentadores da praça.
No ano de 2000 chegou a ser anunciada uma reforma dos sanitários.
Mas as reclamações continuaram.
Em 2005, o jornal Notícias em Mídia publicou uma reportagem mostrando a situação do local. Segundo a matéria, faltavam torneiras, havia vasos sanitários em condições precárias, sujeira, urina acumulada no piso e até dejetos humanos.
Durante praticamente todo aquele ano, os banheiros apareceram como um dos principais problemas apontados pela população e pela imprensa.

O início das discussões sobre a demolição
Em 2001 surgiu a primeira discussão oficial sobre a possível demolição da Concha Acústica.
Durante sessão da Câmara Municipal, a maioria dos vereadores se posicionou contra a proposta.
Na ocasião, os parlamentares defenderam a importância cultural do espaço e afirmaram que os problemas observados eram consequência da falta de manutenção acumulada ao longo dos anos.

Curiosamente, naquele mesmo período o espaço continuava sendo utilizado.
O Grupo de Capoeira Senhor do Bom Fim realizava apresentações aos domingos e o local ainda recebia encontros religiosos e eventos comunitários.

Quando a história se tornou pessoal
Durante esta pesquisa encontrei um momento que não faz parte apenas da história da cidade, mas também da minha própria história.
No dia 27 de maio de 2006 aconteceu o Rock n' Roll Festival.
As bandas Sr. Bones, GLZ 3, Sabbra, Anarkia e Harris se apresentaram na Concha Acústica.
Eu fazia parte da Sr. Bones.
Na época eu era apenas um jovem músico subindo naquele palco ao lado dos amigos Iran Piassa, Rafael Hiraichi e Eduardo Girolla.
Anos depois, pesquisando a história da Concha, encontrei matérias sobre aquele evento publicadas pelos jornais A Cidade de Jardinópolis, Folha de Jardinópolis e Notícias em Mídia.
Poucos dias depois do festival, o próprio Notícias em Mídia publicou uma reportagem elogiando o evento.
Foi impossível não me emocionar ao reencontrar esses registros.





No dia seguinte ao festival, a Concha recebeu uma Feira de Plantas Medicinais.
Era mais uma demonstração da diversidade de atividades que o espaço abrigava.
Os projetos de revitalização
Em 2007, foi realizado um concurso para escolher o projeto que seria utilizado na revitalização da Praça Nossa Senhora Aparecida (Praça Matriz).
A arquiteta Emila Meirelles Menta foi a vencedora do concurso e recebeu como prêmio o valor de R$ 20 mil, entregue pelo então prefeito Dr. Mário Sérgio Saud Reis (Cebola).
O fato chama atenção por outro detalhe histórico: Mário Reis (Cebola) é filho de Dr. Newton Princivalli da Silva Reis, prefeito responsável pela construção da Concha Acústica Maestro Salvador Princivalli em 1979.
Na época, a administração municipal tinha como vice-prefeito o atual prefeito de Jardinópolis, Antônio Carlos Degan.
O projeto apresentado por Emila previa uma ampla revitalização da praça e incluía a permanência da Concha Acústica.
A proposta contemplava a reforma da estrutura, a instalação de uma cobertura metálica e a adaptação dos antigos banheiros para funcionar como camarins.




Em 2008, a própria arquiteta afirmou em entrevista ao jornal Notícias em Mídia que a Concha seria reformada.
Apesar disso, grande parte das propostas previstas nunca foi executada.


Ao mesmo tempo, continuavam surgindo reclamações sobre abandono e acúmulo de lixo na estrutura.
O fim da Concha
Em 2010, durante entrevista ao jornal Notícias em Mídia, o então prefeito José Antônio Jacomini anunciou que a Concha seria retirada.
No local seria construído um novo coreto e instalados banheiros públicos.
Segundo o prefeito, o investimento previsto era de aproximadamente R$ 150 mil.
Pouco tempo depois a Concha Acústica Maestro Salvador Princivalli foi demolida.
A demolição estampou as capas do Notícias em Mídia e da Folha de Jardinópolis.


A ironia da história
Durante esta pesquisa encontrei uma curiosidade histórica que parece saída de um roteiro.
Quando a Concha foi inaugurada, em 1979, uma carta aberta publicada pelo jornal A Cidade de Jardinópolis criticava sua construção.
Os autores afirmavam que a cidade possuía outras prioridades e questionavam a necessidade da obra.
Entre os signatários estava José Antônio Jacomini.
Trinta e um anos depois, já como prefeito municipal, foi justamente José Antônio Jacomini quem anunciou e conduziu a retirada da estrutura.
A própria Folha de Jardinópolis destacou essa coincidência em sua cobertura da demolição.


A Concha Acústica Maestro Salvador Princivalli nasceu cercada de debates.
E desapareceu cercada de debates.
Entre esses dois momentos ficaram mais de três décadas de apresentações, festivais, exposições, campanhas solidárias, eventos comunitários, encontros religiosos, artistas, músicos, estudantes e moradores que passaram por aquele palco.
Hoje a Concha não existe mais.
Mas sua história continua viva na memória de quem a conheceu, de quem se apresentou ali e de quem ainda acredita que preservar a memória de uma cidade é tão importante quanto preservar seus monumentos.
Imagens: Reprodução
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