Jardinópolis discute há 25 anos a necessidade de um novo cemitério
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Uma indicação apresentada pelo vereador Gustavo Sabá (MDB) reacendeu uma discussão que atravessa diferentes administrações municipais e legislaturas em Jardinópolis: a necessidade da construção de um novo cemitério municipal. Registros encontrados pelo Jornal Mídia Digital mostram que o problema já era mencionado publicamente há pelo menos 25 anos e que, desde então, diferentes soluções chegaram a ser anunciadas, mas o novo cemitério nunca saiu do papel.
Na indicação encaminhada ao prefeito Antônio Carlos Degan (MDB), Sabá pede a adoção de medidas urgentes para elaboração de projeto e aquisição ou identificação de uma área pertencente ao município onde possa ser construído um novo cemitério.
Segundo o vereador, não existem mais terrenos disponíveis no atual Cemitério Municipal para a construção de novos jazigos. Ele relaciona a situação ao crescimento populacional de Jardinópolis e aos loteamentos autorizados nos últimos anos, classificando o atual cemitério como “colapsado, sem capacidade de atender aqueles que precisam sepultar seus entes queridos”.
A situação também atinge Jurucê. Há anos existem relatos e registros de moradores de Jardinópolis que precisam sepultar familiares no distrito diante da falta de espaço na sede do município. Ao mesmo tempo, a capacidade do próprio Cemitério de Jurucê também passou a ser motivo de preocupação.

O atual Cemitério Municipal de Jardinópolis carrega uma história de 126 anos. Ele foi inaugurado em 7 de julho de 1900, durante a administração do primeiro prefeito do município, Dr. João Muniz Sapucaia.
Antes dele, o cemitério da cidade ficava na região onde atualmente está a Capela de Santa Luzia. Com o crescimento de Jardinópolis, surgiu a necessidade de um espaço maior e foi construído o cemitério utilizado até os dias atuais.
A história de sua inauguração ganhou contornos curiosos. Pouco mais de um mês depois de entregar o novo cemitério, Muniz Sapucaia morreu e se tornou o primeiro cidadão sepultado no local que havia ajudado a construir.

O episódio atravessou gerações e entrou para o folclore jardinopolense. Durante décadas circulou pela cidade a história de que prefeitos teriam receio de construir um novo cemitério e repetir o destino de Sapucaia. Recortes de jornais antigos mostram que a superstição já era comentada publicamente há muitos anos, inclusive em tom de brincadeira.
A história também é associada localmente a O Bem-Amado, obra de Dias Gomes que conta a trajetória do prefeito Odorico Paraguaçu e sua obsessão em inaugurar o cemitério de Sucupira. A hipótese de que o episódio de Jardinópolis possa ter servido de inspiração chegou a ser registrada em documentos turísticos municipais, porém não há comprovação documental conhecida de que Dias Gomes tenha utilizado a história de Muniz Sapucaia como inspiração para a obra.
Se a história do primeiro prefeito pertence ao folclore, a falta de espaço é um problema documentado há décadas.
Um dos registros mais antigos encontrados durante a apuração está em uma edição de 2 de novembro de 2001 de A Cidade de Jardinópolis. Na época, uma reportagem sobre reformas realizadas no Cemitério Municipal terminava com um alerta do então secretário municipal de Obras e Serviços Públicos, Jorge Saquy Sobrinho: em um futuro não muito distante seria necessária a construção de um novo cemitério em Jardinópolis.

Nove anos depois, a previsão já havia se transformado em urgência.
Em 9 de outubro de 2010, o então Jornal Mídia publicou a manchete “Cemitério de Jardinópolis tem apenas 150 vagas”. A reportagem mostrava que a Prefeitura buscava alternativas para evitar o esgotamento completo do espaço.
Segundo a reportagem da época, a Prefeitura já utilizava o Cemitério de Jurucê para alguns sepultamentos custeados pelo município, como forma de preservar as últimas vagas existentes em Jardinópolis. A administração também trabalhava na identificação de túmulos abandonados, com expectativa de recuperar aproximadamente 400 espaços.
Já naquele período, o então prefeito José Antônio Jacomini falava na abertura de uma licitação para que a iniciativa privada construísse um novo cemitério.

Dois anos depois, o assunto avançou aparentemente para uma tentativa concreta de solução.
Em 3 de março de 2012, o Jornal Mídia publicou a manchete “Jardinópolis vai ganhar novo cemitério”, informando que uma licitação escolheria a empresa interessada no investimento.
Segundo a reportagem, a Prefeitura negociava havia aproximadamente um mês com uma empresa privada que já possuía empreendimento semelhante em outra cidade da região. A administração também havia procurado orientação da Cetesb e buscava uma área adequada, estimada entre um e dois alqueires.
A proposta anunciada previa uma concessão do poder público mediante licitação. A empresa poderia comercializar os jazigos, enquanto parte deles ficaria à disposição da Prefeitura para atender famílias sem condições financeiras.
A movimentação não ficou apenas nas declarações. Em junho daquele mesmo ano, o Jornal Mídia noticiou que a Câmara havia aprovado em primeira votação uma alteração na Lei Orgânica Municipal, enviada pela Prefeitura, para permitir cemitérios particulares no município. Até então, de acordo com a reportagem, eles somente poderiam ser públicos.

Enquanto o novo espaço não se concretizava, a saída encontrada foi prolongar a vida útil do cemitério existente.
Em outubro de 2012, a Prefeitura havia identificado 320 sepulturas que poderiam ser exumadas. A medida era amparada por legislação municipal e permitiria reutilizar espaços considerados abandonados.
Em fevereiro de 2013, o Jornal Mídia voltou ao assunto com a manchete “285 sepulturas serão exumadas”. Dos 320 casos inicialmente identificados, responsáveis por apenas 35 haviam procurado a Prefeitura.
Naquele momento, o Cemitério Municipal possuía, segundo os dados publicados pelo jornal, 11.444 túmulos, sendo 7.422 sepulturas perpétuas, e aproximadamente 50 mil pessoas já teriam sido enterradas no local desde sua inauguração.
A estimativa era de que as exumações proporcionassem aproximadamente mais dois anos de funcionamento ao cemitério.
Ao mesmo tempo, novamente era anunciada uma licitação para a construção de um novo espaço.

Os dois anos passaram e o problema permaneceu.
Em 2014, reportagem do Jornal Mídia já descrevia a capacidade do cemitério como esgotada e lembrava que as exumações haviam proporcionado apenas uma sobrevida ao local. A possibilidade de uma parceria com a iniciativa privada continuava sendo discutida.
Em 2015, o assunto voltou às páginas do jornal. Novas exumações eram consideradas e a administração de José Antônio Jacomini novamente previa uma licitação, até o final do mandato, para uma nova área onde seria construído outro cemitério.
O projeto, entretanto, não se concretizou.
Anos depois, a discussão continuava dentro da Câmara Municipal. Em 2018, reportagem de A Cidade de Jardinópolis sobre uma sessão legislativa registrou falas dos então vereadores André Zanata e Marli Pegoraro a respeito de providências para um novo cemitério. Na ocasião, chegou a ser mencionada a existência ou estudo de uma nova área.
Em 2022, publicações locais voltaram a classificar a capacidade do Cemitério Municipal como praticamente esgotada e relataram que moradores estavam sendo sepultados em Jurucê e até em outros municípios.

Nos últimos anos, as cobranças passaram a aparecer novamente de maneira formal nos documentos da Câmara.
Em 2024, o vereador Luiz Fernando Riul, o Xotô, apresentou indicação tratando da falta de espaços e da necessidade da construção de um novo cemitério. O documento registrava que algumas famílias já precisavam realizar sepultamentos em Jurucê diante da falta de terrenos disponíveis em Jardinópolis.
No mesmo período, Xotô também pediu reformas e ampliação do Cemitério de Jurucê, chegando a mencionar que estava reiterando solicitações anteriores.
Em 2025, o vereador Murilo Menegueti apresentou requerimento no qual afirmou que os cemitérios do município estavam lotados e questionou a Prefeitura sobre tratativas para a construção de um novo espaço.
Ainda naquele ano, Xotô voltou ao assunto, questionando tanto a capacidade disponível em Jardinópolis quanto em Jurucê e cobrando informações sobre as providências adotadas pelo município.
Já em 2026, o vereador Juliano Coelho também apresentou requerimento pedindo informações sobre a ampliação do cemitério e a construção de um novo.
Agora, a indicação de Gustavo Sabá coloca novamente o assunto diante da atual administração.

O Jornal Mídia Digital procurou a Prefeitura de Jardinópolis para saber a situação atual dos cemitérios de Jardinópolis e Jurucê e se existem planos para a construção de um novo cemitério. Foi solicitado retorno até as 12h de sexta-feira (21), mas, até o fechamento desta matéria, não houve resposta.
A história deixa uma constatação: Jardinópolis discute a necessidade de um novo cemitério há pelo menos um quarto de século. Em 2001, o assunto já era apontado como uma necessidade para um futuro próximo. Em 2010, restavam apenas 150 vagas. Em 2012, houve negociação com a iniciativa privada e alteração da legislação municipal. Vieram exumações, novos anúncios, discussões sobre áreas, requerimentos e indicações. Vinte e cinco anos depois do primeiro alerta encontrado nesta apuração, o novo cemitério ainda não existe.
Há ainda um contraste simbólico na história recente de Jardinópolis. Desde o fechamento da Santa Casa, em 2009, os nascimentos deixaram de ocorrer no município e passaram a acontecer em outras cidades. Agora, diante da falta de espaço nos cemitérios, também existem dificuldades para que moradores sejam sepultados na cidade onde construíram suas vidas. No meio desses dois extremos, Jardinópolis tornou-se, de certa forma, uma cidade onde seus moradores apenas vivem.

Imagens: Renato Gomes / Jornal Mídia Digital / Acervo de Jornais / Câmara Municipal
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